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O Papel do Astrólogo – Psicólogo ou Oráculo ?

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Na era moderna, o astrólogo assume-se cada vez mais como um terapeuta da alma, evitando fazer previsões. Mas haverá ainda espaço para a função tradicional, mais preditiva? Qual deve ser a postura do astrólogo para melhor servir a sociedade e ser mais credibilizado? Em que formatos poderão ser feitos prognósticos? E, sobretudo, o que procuram os clientes para melhorarem as suas vidas?  Analisamos estas questões, perguntando à própria Astrologia quais as respostas.

 

As questões acima foram colocadas por João Medeiros, na modalidade horária, como membro da classe dos profissionais de Astrologia no dia 5 de Julho de 2016, às 10h41, em Lisboa.

Esperamos que a interpretação deste mapa possa contribuir para a reflexão de outros interessados no mesmo tema. O assunto foi exposto pela primeira vez no recente Congresso Internacional de Astrologia, realizado na Maia-Porto, iniciativa da Associação Portuguesa de Astrologia.

Genericamente, a questão é “Deve o astrólogo ser um psicólogo ou oráculo?” subentendendo também todas as outras questões secundárias que advêm desta.

O ASTRÓLOGO

Desde logo, o mapa demonstra uma certa radicalidade uma vez que o astro que governa os astrólogos profissionais – regente da Casa 1 em Virgem – é o planeta Mercúrio, o tradicional regente desta classe.

A razão para esta atribuição clássica prende-se com o facto de serem necessárias observações dos céus, cálculos, interpretações de símbolos e leituras de livros de várias línguas  – atributos de Mercúrio.

O que por si é já uma indicação da resposta à questão. Fossem Marte, Vénus ou a Lua os regentes haveria uma maior preponderância da função de terapeuta, como identidade desejável do astrólogo.

O Ascendente no signo da Virgem também aponta para o rigor intelectual que deve permear a profissão de astrólogo, assim como discrição e humildade.

O PSICÓLOGO

Olhando para as posições por signo, reparamos que Mercúrio está em Caranguejo/ Cancer. Isto assinala que o astrólogo deve ser também um psicólogo, alguém que ouve os seus clientes e que lida com o inconsciente, ainda que não possa esquecer o seu lado técnico.

E, nesse sentido, o mapa horário sugere que as duas funções são complementares e que se fundem – o astrólogo deve ser um matemático da psicologia e da alma.

Contudo, o planeta Mercúrio está muito próximo do Sol, ou seja, combusto. Na prática, isto significa que os astrólogos profissionais estão ocultos, são desvalorizados, ignorados, tendo pouca importância social.

O Sol na Casa 11 representará as pessoas influentes na sociedade, as estrelas que mais brilham. Mas também governa a Casa 12, associada aos mistérios e segredos espirituais: o ocultismo.

E, dessa forma, temos um quadro bastante complexo e completo: o astrólogo lida com a consciência e com a espiritualidade, mas também com assuntos tão profundos e inexplicáveis que o tornam um ser estranho e misterioso, um marginal.

Uma vez que Mercúrio se aproxima ainda mais do Sol, em conjunção aplicativa, tudo indica que a fusão com outras áreas da espiritualidade poderá diluir ainda mais a identidade do astrólogo, na sua vertente tradicional, nos próximos anos.

A COMUNIDADE ASTROLÓGICA

Engane-se, contudo, quem achar que a Astrologia em si é uma área pouco popular na sociedade. Pelo contrário.

Neste mapa, a Lua é co-significadora dos astrólogos e de todo o meio astrológico em geral, incluindo curiosos, estudantes, clientes e profissionais. Está domiciliada em Caranguejo/Cancer, na Casa 11 dos grupos, sendo a dispositora do Sol, Mercúrio e Vénus.

Ou seja, na realidade e ainda que muitas vezes na sua versão mais simplista, a Astrologia ocupa um grande espaço na sociedade, em particular, através do público feminino.

O paradoxo reside no facto de não haver paralelo entre o interesse da sociedade no assunto, mesmo que superficial através dos horóscopos de revista, e o pouco crédito oficial que os astrólogos profissionais têm como agentes da comunidade civil, não sendo ouvidos em grandes palcos, painéis mediáticos ou decisões políticas.

Por exemplo, é muito raro ou quase impossível que um astrólogo seja chamado à televisão para comentar assuntos políticos, económicos ou sociais, em programas sérios. Na maioria das vezes, quando solicitado, é para assuntos mais leves e numa ótica comercial, em que se pede a linguagem básica das “previsões signo a signo”.

Como bem sabemos, esse tipo de intervenções não espelham minimamente a profundidade e detalhe que podem ter as interpretações astrológicas mais consistentes.

Estando a Lua vazia de curso temos a indicação de que nos próximos anos esta realidade poderá não se alterar significativamente. E, portanto, não será fácil explicar num plano mais coletivo: que a Astrologia não são só “os signos”; que estes, por sua vez, são arquétipos simbólicos; e que um mapa astrológico pode ter muito rigor quando enquadrado no contexto a que se refere.

AS PREVISÕES

Como parte da questão está focada no papel que as previsões devem ter (ou não) na função de astrólogo, devemos identificar onde são representadas neste mapa horário.

Se a resposta pendesse para o que astrólogo fosse mais adivinho, ou seja, um profeta, então, esperaríamos que o seu representante estivesse: num signo de Fogo (elemento associado ao futuro) ou de Terra (concreto); ou fosse regido por Júpiter (o astro das profecias); ou que estivesse na Casa 9 (da adivinhação); ou bem associado aos regentes desta casa.

E reparamos que nada disto acontece. Mercúrio e Lua estão num signo de Água, o que aponta para que análise do passado – a “astropsicoanálise” – seja mais relevante que a interpretação do futuro.

Por outro lado, os regentes da Casa da futurologia (a Casa 9) são Marte e Vénus, de onde a Lua se afasta, estando também distantes de Mercúrio (que tem o Sol pelo meio).

O único, ainda que relevante, indicador do lado profético que o astrólogo deve assumir é a presença de Júpiter na Casa 1, o que o liga a um magistério de fé, divinatório, através de cálculos.

Porém, Júpiter em Virgem não representa uma adivinhação qualquer, e contrasta com o tipo de previsões de Marte em Escorpião – associadas a desgraças, mortes e coisas incontornáveis – e de Vénus em Caranguejo – as previsões bonitas e vagas das revistas cor-de-rosa bem como de muitos astrólogos modernos, mas que pecam pela falta de concretização.

Ou seja, algum tipo de trabalho preditivo é pedido, mas não são desejáveis nem as previsões negras e fatalistas nem demasiado cor-de-rosa, em que tudo é possível.

OS CLIENTES

Para completar este puzzle, é determinante compreender o que os clientes dos astrólogos profissionais procuram. Não estamos a falar, neste caso, da comunidade genérica de Astrologia, que inclui os curiosos, mas daqueles que pagam um serviço a um profissional.

Os clientes estão representados pela Casa 7, que abre em Peixes, contendo Neptuno e a Cauda do Dragão. Isto sinaliza que os clientes dos astrólogos podem ser, genericamente, muito crentes, espirituais, ingénuos, frágeis e atravessando mares de dúvidas e crises existenciais. É provável também que se sintam isolados e incompreendidos, em situação de angústia.

Este indicador sugere, mais uma vez, que o astrólogo deve ter uma atitude cuidadosa e empática no trato com os clientes, isto é, mais psicológica.

Contudo, quando vemos onde está o representante dos clientes, reparamos que Júpiter – o regente da Casa 7 – está precisamente em Virgem, na casa do astrólogo.

Esta posição reflete que é o cliente que se desloca ao espaço do astrólogo mas, sobretudo, que procura o lado virginiano deste, estando nas suas mãos. E este fator é muito relevante: o cliente quer ordem, soluções práticas, racionalidade e rigor com otimismo (Júpiter em Virgem).

Não procura respostas absolutas, mas quer esperança, informações práticas e detalhadas sobre o seu caminho, que lhe permitam ser mais feliz.

Virgem é um signo mutável, de dualidade, assinalando que o cliente quer conhecer as opções que tem na sua mão, e qual poderá ser a melhor atitude, qual poderá ser a decisão que lhe trará mais benefícios. Também procura precisão virginiana, acerto nos tempos e na estimativa das consequências, ainda que aceite a flexibilidade das mesmas.

Está implícito, portanto, o livre-arbítrio  e análise de cenários de ação, ainda que o cliente se sinta preso, na tradicional posição astrológica de exílio, admitindo o condicionamento da sua situação.

Júpiter está conjunto à Cabeça do Dragão e à parte da Fortuna o que também reforça a imensa expectativa depositada na “leitura da sorte”, mas também na evolução pessoal que possa resultar do encontro.

AS INSTITUIÇÕES

Falta focar ainda um planeta clássico, com pouco peso neste mapa: Saturno. Está em Sagitário e retrógrado na Casa 4, do passado e das fundações.

Na minha opinião, Saturno representa aqui não só os ancestrais dos astrólogos modernos – bastante mais formais, sérios, trabalhadores e académicos – como também as instituições académicas modernas.

A posição de Saturno, sem aspetos significativos e em antagonismo com Mercúrio e Lua (exílios mútuos), sugere um alheamento total entre as instituições académicas, religiosas ou culturais e a comunidade astrológica. Como se fossem mundos separados.

A razão desse “karma” pode ser mesmo as atitudes mais quadradas, pesadas ou absolutas que os astrólogos podem ter tido no passado, e que lhe valeram também censuras e sacrifícios na “fogueira”.

E ainda que não seja um argumento decisivo, de todo, sugere-se que é importante que os astrólogos alterem atitudes fundamentalistas do passado, mas também que conheçam melhor os seus fundadores históricos.

OS TEMPOS

Poderemos considerar este mapa horário também como representativo da evolução histórica dos astrólogos.

E, nesse sentido, a entrada de Mercúrio em Caranguejo pode representar o nascimento da Astrologia Psicológica, no fim do século XIX. Com esta métrica, cada grau corresponderá a cerca de 10 anos.

Se esta associação estiver correta, então o último aspeto tradicional de Mercúrio foi uma quadratura a Júpiter, há cerca de 260 anos, no início da Revolução Industrial.

O ponto mais alto, em termos de impacto social, terá correspondido à passagem de Mercúrio pelo Meio-do-Céu, há 390 anos, correspondendo ao início do século XVII – épocas de vida de William Lilly e Johannes Kepler, dois expoentes máximos desta arte, por razões diferentes.

Nesse caso, a combustão de Mercúrio com o Sol e saída da Lua de Caranguejo / Cancer, corresponderão ao meio do século XXI, por volta de 2050, altura em que se daria a plena fusão do astrólogo com a espiritualidade, numa profunda transformação da sua identidade, meios técnicos e função social.

Por outras palavras, parece-me que a diluição do papel do astrólogo numa outra identidade como terapeuta holístico, que integra várias ferramentas da psicologia moderna, será o cenário mais provável, chegando a uma finalização nessa época.

Entre estas áreas, atendendo a que a casa dos grupos sociais está muito preenchida (Casa 11) mas em Caranguejo/ Cancer, parece-me que a metodologia das Constelações Familiares será uma grande candidata a ser integrada na Astrologia do futuro, com grandes benefícios para a sociedade. Em parte, porque trabalha a psicologia em grupos e de modo intuitivo, buscando curar o passado.

Para um papel útil do astrólogo é também importante que ele se reúna mais vezes com outros amigos astrólogos, em associações e eventos (Casa 11).

OS SÍMBOLOS

Mais longe poderíamos ir ainda na interpretação deste mapa, por exemplo, acrescentando os símbolos dos graus. E, neste caso, é interessante constatar como o grau de Mercúrio (12º de Cancer) é um grau com o título de Alto Saber.

É igualmente significativo que o Sol esteja conjunto à estrela Sírius, a estrela mais importante das civilizações egípcias, de onde grande parte deste conhecimento foi originário. Fará sentido, por isso, dizer que a Astrologia deriva de um conhecimento secreto sobre a espiritualidade para onde está a regressar.

CONCLUSÕES: PSICÓLOGO ou ORÁCULO

Resumindo todos os argumentos, atendendo também a que a Lua (comunidade) e Marte (previsões fatalistas) estão em afastamento e mútua Queda, não sendo nada conveniente voltar atrás, diria que o papel do astrólogo nos próximos tempos será muito semelhante ao que já tem acontecido, assumindo-se mais como técnico da Alma.

Esta postura – de foco na Astrologia do Eu (Ego) com uma linguagem mais subjetiva – terá vantagens para a comunidade, embora isso também acabe por descaracterizar mais ainda o astrólogo, enquanto entidade digna de reconhecimento público e com uma identidade clara.

Na prática, contudo, o astrólogo deve saber ser um exemplo de saúde física e mental (Nodo Norte, Virgem e Júpiter na Casa 1), cuidando bem de si, sendo organizando e fazendo estudos com precisão. A sua própria auto-superação enquanto ser humano deve ser a sua prioridade, sempre com humildade.

Não deverá falar dos cenários futuros como previsões mas como estimativas e probabilidades, que dependem das ações do consulente e sempre com possibilidade de dois cenários, respeitando o livre-arbítrio e fomentando a decisão mais benéfica para o consulente.

Esta interpretação é ainda confirmada pelos pontos menores, como o asteroide Palas-Atena na Casa dos clientes, e pelo próprio Júpiter na Casa 1.

Na mitologia, Zeus-Júpiter foi o único que conseguiu contrariar uma profecia de Gaia, de que seria destronado por um filho seu, tal como acontecera com o seu avô Urano e pai Saturno.

Engoliu Métis, deusa da astúcia, e da sua cabeça nasceu a deusa Atena, que viria tornar-se a sua maior aliada, em vez de maior inimiga. Esta história demonstra como na própria mitologia o “destino” e as profecias são negociáveis e podem ser alterados, desde que tenhamos consciência, inteligência e força de vontade.

Por último, é de assinalar a recepção mútua por exaltação, entre os astrólogos profissionais e os seus clientes. Este fator aponta para uma boa relação entre ambos, de reforço mútuo e ausência de julgamento.

Estes dois astros – Mercúrio e Júpiter – representam as funções mais importantes que o astrólogo deve desempenhar, utilizando a sua mente racional e a mente intuitiva que consegue interpretar símbolos com um significado concreto na vida real.

Esperemos também que este exemplo possa ilustrar que até o ramo considerado mais preditivo da Astrologia – a Horária – pode ser usado para reflexão profunda e tomadas de consciência importantes.

Boa sorte a todos os curiosos, estudantes ou profissionais desta nobre arte!

João Medeiros

Lisboa, 4 de Março 2017

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Comentários

  1. armanda  Março 6, 2017

    Gostei muito desta análise João.
    Estou de acordo com o que diz.
    Adoro a astrologia mas sinto uma enorme necessidade de estudar, estudar, estudar e,
    a sensação é de que “nada sei”…
    Há tanta coisa para ser estudada nesta matéria…
    Realmente, as pessoas leigas nesta matéria, não imaginam o quanto é necessário estudar e aprender
    Esta também deve ser uma das razões porque as pessoas não valorizam os astrólogos
    Habituaram-se a ler as revistas e pensam que a astrologia é o que lá escrevem
    Dias melhores virão
    Obrigada pelos ensinamentos

    responder
    • joaomed  Março 7, 2017

      Obrigado, Armanda! Um abraço JM

      responder

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