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Nascer com Planetas Retrógrados

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O que significam os planetas retrógrados num mapa astrológico? Quais as dificuldades e oportunidades que estes astros encerram? Quão provável é alguém nascer com um planeta retrógrado? Que casos célebres nos podem ilustrar esta condição?

Estas questões são das mais colocadas por curiosos e estudantes de Astrologia. E com razão porque além das interpretações tradicionais – com uma conotação muito negativa de um planeta retrógrado – não há muitas interpretações modernas sobre o mesmo.

As excepções são os trabalhos de Dane Rudhyar e também de Erin Sullivan que aprofundam o tema de um ponto de vista psicológico. Neste artigo, apresentamos uma síntese do tema aliando a abordagem tradicional com a moderna, de uma forma prática.

1- O QUE É UM PLANETA RETRÓGRADO?

Para começar, importa dizer que os luminares – Sol e Lua – nunca ficam retrógrados, todos os outro astros podem ficar retrógrados.

Do ponto de vista da Terra o planeta retrógrado regride em longitude zodiacal, andando para trás nos signos do Zodíaco. Este fenómeno é uma ilusão de ótica originado pelas velocidades e posições relativas entre a Terra e esses astros. Na realidade, os astros andam sempre no mesmo sentido à volta do Sol.

Numa metáfora, imagine que está num comboio (trem) que ultrapassa outro. Do seu ponto de vista, esse comboio está a andar para trás quando na realidade andam os dois para a frente mas em velocidades diferentes.

Portanto, a retrogradação é um fenómeno geocêntrico – apenas uma visão a partir da Terra.

Até à comprovação científica do heliocentrismo não era possível explicar com clareza como era possível um planeta ficar retrógrado. As teorias astronómicas de Ptolomeu (séc. II d.C.) foram durante séculos a última palavra sobre o assunto até Kepler (séc. XVII) descobrir as órbitas elípticas e outras leis.

Do ponto de vista simbólico, isso também é importante. Como se o próprio astrólogo tivesse que rever muitos dos seus princípios sobre o  modelo astrológico e cosmológico, bem como o significado dos planetas retrógrados.

2- QUANTO TEMPO ESTÃO OS PLANETAS RETRÓGRADOS?

Os planetas estão mais tempo em movimento direto (sentido normal do Zodíaco) do que retrógrado. Essa diferença acentua-se com a proximidade do planeta à Terra. Em concreto, os planetas transpessoais estão quase metade do tempo retrógrados enquanto que o que mais raramente está retrógrado é Vénus. Vejamos as percentagens:

Plutão – órbita de 248 anos – cerca de 5 a 6 meses retrógrado por ano – 41 a 50 % do tempo Rx

Neptuno – órbita de 165 anos – cerca de 150 dias retrógrado por ano – 41 % do tempo Rx

Urano – órbita de 84 anos – cerca de 148 dias retrógrado por ano – 40 % do tempo Rx

Saturno – órbita de 29,5 anos – cerca de 140 dias retrógrado por ano – 38 % do tempo Rx

Júpiter – órbita de 12 anos – cerca de 120 dias retrógrado por ano – 33% do tempo Rx

Marte – órbita aprox. 2 anos (687 dias) – cerca de 55 a 80 dias a cada 2,16 anos – 7% a 10% do tempo Rx

Vénus – órbita aprox.225 dias à volta do Sol – cerca de 6 semanas  a cada 18 meses – 7 % do tempo Rx

Mercúrio – órbita aprox. 88 dias – 19 a 24 dias a cada 3 vezes por ano – 15% a 20% do tempo Rx

Assim, é relativamente normal uma pessoa nascer com um planeta retrógrado.  Em média, cada pessoa terá uma probabilidade de nascer com cerca de 2 a 3 planetas retrógrados (incluindo transpessoais), sendo: mais comum nascer com 3; menos comum nascer sem planetas retrógrados ou com 5 ou mais.

Mais rara, no entanto, é a probabilidade de alguém nascer com um planeta regente do Ascendente em movimento retrógrado. Excluindo os transpessoais (como regentes de signos) esta é a probabilidade de alguém nascer com o regente do signo ascendente retrógrado:

Saturno – 6,3 %; Júpiter – 5,5%; Marte – 1,6%; Vénus – 1,1%; Mercúrio – 3,3%

Ou seja, a probabilidade geral de alguém nascer com regente de Ascendente retrógrado, em média, corresponde à soma destas percentagens (cerca de 20 %) mas a probabilidade é diferente para cada astro clássico.

Por conseguinte, podemos concluir que é relativamente normal que uma pessoa nasça com pelo menos 2 a 3 planetas retrógrados e que 1 em cada 5 pessoas terá o regente de vida nessa condição. Mas apenas 1 em cada 100 pessoas terá Vénus retrógrado como regente de vida.

3- O QUE SIGNIFICA UM PLANETA RETRÓGRADO?

Tradicionalmente, considerava-se a retrogradação uma debilidade acidental do planeta, impedindo-o de funcionar de forma normal e estável, como se a sua ação estivesse contida e bloqueada.

De um ponto de vista prático, como em muitos exemplos de Astrologia Horária, as debilidades clássicas fazem muito sentido. Porém, quando transpomos para a Astrologia Natal, numa visão psicológica, qualquer debilidade representa uma oportunidade de evolução da consciência, mesmo que associada a mais esforço da personalidade.

O mais curioso em relação aos planetas retrógrados é que estão mais luminosos no céu (no caso dos planetas exteriores) e astronomicamente mais perto da Terra (todos eles) quando nesta condição.

Num mapa astrológico, quando retrógrados, os planetas de Marte a Plutão estão sempre do lado oposto ao do Sol, sendo muito visíveis no céu (até Saturno), caso a pessoa tenha nascido de noite. Algo semelhante acontece com Mercúrio e Vénus – a sua conjunção ao Sol quando retrógrados chama-se conjunção inferior – e acontece quando estão fisicamente mais próximos da Terra.

O que representa uma contradição simbólica. Como é possível estarem mais luminosos e mais próximos da Terra e, ao mesmo tempo, serem considerados “fracos”?

Uma explicação plausível foi-me dada pela astróloga tradicional Deborah Houlding: na verdade, os planetas exteriores ficam tão poderosos que a sua função fica corrompida pelo ego – o indivíduo quer criar as suar próprias regras e torna-se um inadaptado social – tendo que se retirar para o seu mundo interior.

Outra explicação complementar é a que o planeta retrógrado está em mais contacto com a Alma – do que com os modelos normais da sociedade – assumindo uma essência diferente do convencional mas de acordo com os seus valores mais profundos e antigos (numa perspetiva kármica).

Na prática, um planeta retrógrado pode funcionar de forma: Rebelde; Reservada; Revoltada; Resistente; “Retrógrada”; Introvertida; Irreverente; Original; Instável. Pessoas com muitos astros retrógrados ou o regente de vida podem literalmente sentir-se fora da sua época, país ou cultura funcionando contra a maré da normalidade social à sua volta, por vezes, resgatando tradições antigas ou inovando  – sentindo-se muito à frente ou muito atrás dos seus.

Em termos de vida quotidiana, um dos desafios destas pessoas é compreenderem que têm o seu próprio ritmo e valores de vida muito contrastantes com o da sua comunidade ou meio familiar.

4- QUAIS AS FASES DE RETROGRADAÇÃO?

É importante lembrar também que há três fases importantes da retrogradação: a estação de direto para retrógrado (quando o planeta começa a ficar “doente”, na metáfora tradicional, e se deita na cama); a conjunção ou oposição ao Sol (o começo da cura); a estação de retrógrado para direto (quando o astro se começa a “levantar da cama”, ficando claramente melhor).

No caso dos astros exteriores, de Marte a Plutão, a primeira estação corresponde à fase em que estão mais orientais (em relação ao Sol), sendo essa uma fase mais poderosa (aumentam de luz) mas também mais desafiante (profunda introspeção e crise de Alma). Neste caso, os planetas estão num dos 4 a 6 signos que antecedem o do Sol (exemplo: Sol em Aquário, Júpiter retrógrado em Virgem). Aqui, as personalidades são desafiadas a confrontar os valores sociais com modelos muitos diferentes – sendo mais sujeitos à marginalização e incompreensão, mas também a criarem mais originalidade.

No caso dos astros interiores, Vénus e Mercúrio, a primeira estação corresponde à fase em que estão mais ocidentais, ou seja, posicionados em signos que se sucedem ao do Sol (exemplo: Sol em Touro, Vénus em Gémeos retrógrada) – sendo, portanto, a fase mais desafiante, refletindo-se sobretudo nas relações com os seus pares e nas relações afetivas.

Por outras palavras, a primeira estação do planeta acentua ainda o desafio da retrogradação, porque se começa uma fase de busca interna.

A técnica das progressões secundárias ajuda a compreender a aprendizagem deste processo ao longo da vida.

Pelo contrário, a proximidade à segunda estação do planeta facilita a vivência do processo de retrogradação um vez que está na fase final do mesmo, prestes a voltar ao mundo.

5- QUAIS AS DIFERENÇAS ENTRE OS VÁRIOS PLANETAS RETRÓGRADOS?

No caso de Vénus, quando retrógrada, são normais as seguintes manifestações: dificuldade em desenvolver relações estáveis e prazerosas; reserva ou desconfiança na entrega amorosa e emocional; celibato ou promiscuidade; relações amorosas ou sexuais pouco convencionais. Pela positiva, a pessoa pode saber estar melhor no seu próprio mundo, sendo até mais amorosa e altruísta do ponto de vista coletivo, não precisando de uma relação para se sentir feliz.

No caso de Mercúrio, quando retrógrado, são naturais os seguintes comportamentos:  dificuldades na aprendizagem, linguagem ou comunicação; gaguez, problemas de fala ou mentais; distrações, falhas de diálogo e dificuldade em ser entendido pelos outros (a pessoa fala uma língua diferente que quase ninguém entende); discurso mais emocional e criativo que racional; problemas com os seus pares ou dos seus pares (irmãos, primos, colegas ou amigos).

Pela positiva, o indivíduo pode notabilizar-se por linguagens originais – ver as coisas de ângulos muito diferentes e surpreendentes. Como compensação, poderá querer escrever muito ou falar muito, mas não necessariamente de forma racional.

No caso de Marte, caso a pessoa tenha nascido com este astro retrógrado pode desenvolver dificuldades em ter iniciativa, em ser independente, em tomar decisões e assumir o confronto. Porém, a frustração ou raiva contida podem resultar também num excesso de impulsividade e emoção que dificultam o equilíbrio das relações, uma vez que a pessoa funciona como uma bomba atómica, podendo explodir nos momentos menos previsíveis.

No caso dos homens, Marte retrógrado pode estar associado a um excesso de energia física e sexual (Marte luminoso) mas que pode ser contraproducente, gerando lesões, agressões, acidentes ou disfunções. Em geral, pessoas com esta posição devem encontrar um escape físico para canalizar a sua grande energia interna que pode ser altamente curativa, quando posta ao serviço dos outros de forma cuidadosa.

Quando uma pessoa nasceu com Júpiter retrógrado é a função da Fé/ Liberdade que está interiorizada. Isto significa que pode não acreditar em nenhuma religião convencional, sistema político ou legal, por exemplo, tendo as suas próprias crenças ou descrenças vincadas, diferentes da norma (mesmo que “antiquadas”) e voltadas para dentro. Devido a esse desajustamento pode sentir-se preso na sociedade, acreditando mais em si próprio do que em instituições externas ou nos outros.

Quando é Saturno que está retrógrado é o próprio trabalho, objetivos materiais e responsabilidade que são vividos de forma diferente e mais pessoal. Nesse sentido, o indivíduo pode ter empregos instáveis, vida financeira acidentada e uma carreira muito original. Também pode ter dificuldade em assumir compromissos duradouros e em sentir que consegue o sucesso, de acordo com os padrões normais.

Porém, uma vez que Saturno está muito luminoso a pessoa pode, ao mesmo tempo, reagir pelo excesso desenvolvendo ambição e autoridade excecionais em áreas ou contextos pouco usuais. Ainda assim o desafio com as regras e autoridades poderá ser significativo, assim como com figuras parentais.

Em relação aos astros transpessoais, o raciocínio aplicado é o mesmo, adaptando à sua função. Urano, corresponderá a ideias radicais mas internas; Neptuno, a grandes sonhos mas algo contidos; Plutão a obsessões fortes mas tendencialmente escondidas.

Resumindo, Vénus retrógrado pode corresponder a arquétipos da Freira ou Prostituta, conforme a orientalidade, casa e aspetos; Mercúrio ao Autista, Cantor ou Pintor; Marte a um Assexuado, um Psiquiatra ou a um Pugilista…. Júpiter a um Ateu ou a um Astrólogo; Saturno a um Ditador ou a um Desempregado.

6- QUAIS OS EXEMPLOS DE PESSOAS COM RETRÓGRADOS?

Vários são os exemplos de personalidades com um planeta significativo retrógrado: o regente do Ascendente. Em geral, tiveram vidas algo atribuladas e com poderes ou dons também excecionais, em determinados momentos das suas vidas.

O caso mais célebre é Adolf Hitler que nasceu com Vénus retrógrada (o tal caso de 1 em 100) muito mal aspetada e ocidental (perto da 1ª estação). É sabido que desconfiava muito das amantes tendo mandado assassinar várias (não era conhecido por ser particularmente bondoso com os outros seres humanos). Lembremo-nos que foi um artista frustrado (retrógrado) que se envolveu na política.

Outros políticos importantes da mesma época também nasceram com Vénus ocidental retrógrada como Churchill e De Gaulle (regente de vida).

Na área da música, alguns exemplos são Kurt Cobain (Mercúrio), Amy Whinehouse (Mercúrio), Janis Joplin (Saturno), Jim Morrison (Saturno), Jimi Hendrix (Júpiter) – o clube dos 27 – bem como Bob Marley (Júpiter). Todos com o regente de vida nesta condição, com vidas rebeldes, descontroladas e curtas.

O ator James Dean, um ícone falecido em acidente muito novo e com estilo irreverente, também tinha regente de ascendente retrógrado – Marte.

Ainda no quadrante musical, David Bowie (Saturno) e presumivelmente Michael Jackson (Mercúrio) terão nascido com o regente de vida retrógrado.

De outros quadrantes, mais intelectuais, temos também Freud (Marte), Jung (Saturno) e J.R. Tolkien (Mercúrio) – personagens que viveram, de certo modo, fora da sua época sendo muito inovadores. No caso de Tolkien, criou literalmente novas linguagens e universos.

A estes podemos acrescentar Steve Jobs (Mercúrio), o líder da Apple, um criador tecnológico.

Com Júpiter retrógrado – regente de Ascendente – encontramos, por exemplo, o caso de William Lilly, provavelmente o astrólogo mais famoso de todos os tempos. Contudo, teve problemas com a justiça e instituições políticas na sua época, tentando servir a todos de forma neutra. Tinha uma relação com o divino muito particular e fora do convencional, mesmo para os padrões de hoje.

Na política, destacam-se personalidades relevantes como Barack Obama (Saturno) e a Rainha de Inglaterra, Isabel II (Saturno), sendo esta última particularmente interessante por ser o bastião de um sistema político muito antigo: a monarquia.

No caso de Obama, Saturno estava já na segunda estação enquanto que no caso da Rainha, na primeira estação e, por isso, no início do processo de retrogradação – ou seja, mais representativa de uma autoridade fora do comum (na duração e contexto) – ainda que seja uma figura política de retaguarda, em termos práticos (voltada para dentro).

De todos os astros retrógrados, o menos complicado de viver será Saturno dada a natureza do planeta (material e social) e por ser o que mais tempo fica retrógrado, considerando os planetas clássicos.

7- CONCLUSÃO

Com este artigo, esperamos ter ajudado o leitor a compreender que a condição de retrogradação é, realmente, especial requerendo uma interpretação também diferente. Em potência, pode ser um fator muito poderoso da personalidade, ainda que desadequado do contexto externo e muito desafiante. Tanto a teoria astrológica como exemplos de celebridades sugerem o mesmo.

Os planetas têm probabilidades diferentes de estarem retrógrados – sendo Vénus o mais improvável e Plutão o mais comum. Porém, as diferentes fases da retrogradação também devem ser acauteladas, sendo a primeira estação mais desafiante. Em geral, deve-se respeitar a originalidade de um planeta retrógrado mas ajudá-lo a participar na sociedade de forma útil, tanto para o próprio como para os outros.

Um abraço

João Medeiros

Lisboa, 2 de Abril de 2017

(artigo protegido com direitos de autor – permitida a divulgação, com menção ao autor, mas não é permitida a cópia sem autorização)

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